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A Esperança, de André Malraux. Trad. de Eliana Aguiar. Ed. Record, 476 págs. |
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Urgência da palavra contra
a guerra
Renato Bittencourt Gomes
O Globo de 10 de março de 2001
Nascido em Paris, ele parecia ter sua nacionalidade não na França mas na supraterritorial pátria dos aventureiros. André Malraux (1901-1976) foi homem de andanças: percorreu muitos países e teve muitas ocupações - atravessador de livros raros, saqueador de templos de civilizações antigas, combatente, político, ministro de Estado, estudioso da arte e, também, escritor. Tão rica experiência produziu um curioso amálgama de reflexão e atitude, e sua obra literária revela um movimento pendular entre pensamento e ação.
Um de seus primeiros livros, "O caminho real" (1930), narra a aventura romântica de europeus em busca de sucesso em terra exótica. Em "A condição humana" (1935) ele retrata uma rebelião ocorrida em Xangai em 1927, sem um personagem principal claramente definido: o protagonista é a militância esquerdista. Assim, o mundo passa a ser coletivo e a jornada se faz procurando construir o socialismo, com seus inevitáveis percalços, por vezes sórdidos ou cruéis. A passagem da perspectiva individualista para o painel sóciopolítico reflete um redirecionamento do autor, que começa a se inquietar com os posicionamentos convulsionados da primeira metade do século XX, os quais resultaram na ascensão dos totalitarismos na Europa. Testemunha participante, ele presenciou as tendências desse tempo se cristalizando em ideologias e as registrou em seus livros - "A Idade dos Partidos está começando, meu bom amigo...", diz um dos atores de "A esperança" (1937), relançado pela Record em edição comemorativa do centenário de nascimento do autor com apoio do ministério da cultura da França, pasta da qual ele foi titular.
Como o anterior, este é um romance cujo protagonista não é uma pessoa e sim um acontecimento histórico: a Guerra Civil Espanhola (na qual Malraux organizou a esquadrilha España, aviação estrangeira que lutou pela república). Mas há diferenças, pois em "A condição humana" ainda temos o confronto da tentativa de solução por atos individuais com a necessidade de trabalhar em conjunto. Talvez estas linhas de força estejam melhor encarnadas no caráter mais angustiado (e por isso mesmo mais rico) da trama - Tchen, militante que deriva para um terrorismo que lhe custa a vida e, mais que tudo, revela-se inútil. "A esperança", com a força trágica dos choques armados, traz uma situação na qual a busca do indivíduo não se coloca - a máquina do mundo se impõe e isso é tudo: "parecia que, aos olhos dos deuses, os homens eram apenas a matéria dos incêncios". Por suas quase quinhentas páginas, desfilam um grande número de personagens e pouco sabemos deles além do seu desempenho nas operações. As mulheres são figurantes sem nome: estamos diante de um universo quase completamente masculino - os varões lutam e, nos intervalos, refletem sobre a luta.
São mesmo marcantes os descompassos: a vertigem das batalhas e as longas conversas dos companheiros de armas. Em "A condição humana", isto ocorria logrando uma certa visão de conjunto, uma totalidade e uma conclusão, ainda que amarga. Ao final de "A esperança", temos a impressão de algo provisório, inconcluso como a existência. Certamente contribui para isto sabermos que o livro foi escrito em poucos meses, antes do fim da Guerra Civil. Mas fundamental é a estrutura do produto verbal: oscilando entre os feitos de armas e os diálogos, o romance tem a urgência de uma aventura da palavra num país de ninguém chamado guerra.
RENATO BITTENCOURT GOMES é escritor
José Castello
O Estado de São Paulo
Quando um romance se baseia na experiência biográfica, ou adota os procedimentos de uma reportagem, e é primário, simplório, caricatural, dificilmente merece ser chamado de romance. Quando, no mesmo caso, é ao contrário de excelente qualidade, a qualidade se sobrepõe às questões de gênero - e romance é mesmo a palavra mais adequada para definir o que se leu. Esse é o caso de A Esperança (Editora Record, 473 págs., R$ 46), romance-reportagem do escritor francês André Malraux (1901-1976). O próprio Malraux, irritado com as dificuldades encontradas pelos críticos para definir seu livro, disse: "A Esperança é um romance-reportagem como Os Irmãos Karamazov é um romance policial." Dizia ainda, sem temer a afirmação paradoxal, que escrevia romances, mas não era romancista. O paralelo com o romance de Dostoievski, de fato, é forçado - Os Irmãos Karamazov (e toda a obra do autor russo) é muito superior ao livro de Malraux. Em todo caso, A Esperança não deve ser diminuído, até porque por detrás dele está um homem que foi, a seu modo, esquivo e sonhador, um dos mais dinâmicos lutadores do século 20.
Um crítico severo como o norte-americano Harold Bloom já disse, a propósito, que "a economia ficcional de Malraux é admirável, mas os resultados soam um tanto esquemáticos". Em vez de sofrer de excesso de realidade, como em geral se diz, as ficções de Malraux, ainda segundo Bloom, seriam "abstratas" demais, baseadas em princípios muito rígidos. Ele seria um autor mais preocupado "com o homem do que com os homens". Pensador e homem de ação, combatente, militante, interessado pela filosofia e psicologia da arte, arqueólogo ocasional, Malraux foi, como lembra a tradutora e prefaciadora Eliana Aguiar, tomando emprestadas as palavras de André Brincourt, "um prestigioso romancista provisório". Provisório porque, para ele, as contingências (e as idéias sobre as contingências) estavam acima de tudo - inclusive da ficção e das seduções por ela oferecidas. Seus livros são uma mescla, bem dosada, de ação vivida e ação criadora; mas não se pode negar que, apesar do talento literário, o vivido (o aventureiro Malraux) toma sempre a frente da cena.
O mais provável é que André Malraux não tenha sido mesmo um grande romancista - seus livros estiveram sempre encharcados de memória, sobrecarregados de história e estão sempre a um passo da confissão e do desabafo. Nem por isso eles deixam de ser menos espetaculares até porque, por intermédio deles, em vez de personagens inesquecíveis ou de grandes jogos intelectuais, o que descobrimos é o próprio Malraux, o homem em ação.
Sua produção como romancista ocupa um período relativamente curto de sua longa vida, mais exatamente 15 anos (entre 28 e 43); quando sua obra recobre, no geral, mais de meio século. Apesar dessa posição ímpar que ocupa na cena literária francesa, para Malraux o tema mais apaixonante, mais que a guerra, ou o comunismo, ou a liberdade, sempre foi a arte e seu séquito de artistas.
Nascido em Paris, em 1901, André Malraux estudou arqueologia e arte oriental antes de partir para a Ásia, em 1923, para uma temporada de quatro anos, que marcaria sua visão de mundo. De volta a Paris, passou a dirigir a coleção de livros de arte da Gallimard. Seu primeiro livro, A Tentação do Ocidente, foi publicado quando tinha 25 anos. Teve uma vida em que o intelectual nunca se desligou do aventureiro. Depois de lutar como chefe de uma esquadrilha de 20 aviões na Guerra Civil espanhola, ao lado dos republicanos, experiência que lhe rendeu este A Esperança (depois transformado em célebre filme, lançado em 1939), Malraux entraria para a Resistência na qual, com o pseudônimo de coronel Berger, chefiou um grupo de combatentes em Corrèze. Quase foi fuzilado, mas a libertação veio antes. Com a queda do nazismo, tornou-se ministro da Informação do general De Gaulle, até 46. Entre 59 e 69, seria o encarregado de Assuntos Culturais do general. "Tudo o que era da ordem da ação, para mim, relacionava-se com o general De Gaulle", admitiu certa vez.
Palavroso - Como escritor, Malraux sempre foi considerado enfático, palavroso, grandiloqüente - atributos que, apesar do exagero, derivam de seu engajamento apaixonado com a vida e do elo frágil e muito nervoso que, para ele, a une à literatura. "O artista não copia o mundo, ele é seu rival", disse certa vez; para ele, o artista não estava destinado à ilustração, não era um retratista, mas para o confronto, como um soldado. De fato, nada menos decorativo, ou sereno, que um romance de Malraux - e nesse aspecto este A Esperança parece radical. Malraux achava que, com a morte de deus e das religiões, eles foram substituídos não pelo ateísmo, mas pelo imaginário. O que significa dizer que, em seu esquema de mundo, o escritor ocupava o posto de anjo, de mensageiro, a estabelecer um fio entre a realidade das guerras e do sangue e a esfera mais difusa da sensibilidade e da verdade. E as ficções, pesada carga, ocupavam o papel das religiões.
Malraux escreveu, a rigor, grandes reportagens em forma de romances, mas talvez as coisas não possam ser reduzidas assim. Ele disse também: "É da natureza do verdadeiro poeta inventar o que não existe", e esse poeta não era, para ele, só o sujeito que escreve versos, mas alguém que fabula, ou pinta, ou compõe. Malraux, o comunista, o ateu, o soldado, também achava que há apenas uma solução para o homem: o amor. Tudo isso está em A Esperança.
Malraux o escreveu, ainda nas palavras da tradutora, "com as tintas carregadas de Goya". A referência ao pintor espanhol, considerado o último dos grandes mestres antigos, é procedente, já que ambos parecem se encontrar no mesmo cruzamento em que o passado, cheio de rachaduras, anuncia o futuro.
Além disso, A Esperança é, dentre todos os seus romances, aquele mais contaminado por vozes em desacordo, conflitos, dissonâncias - e de certo modo o mais ousado. Os diversos personagens, o apressado Negus, o prático Scali, o ponderado Magnin, Alvear encastelado em sua biblioteca, Guernico e seu cristianismo, tomam posições discrepantes diante da condição humana, que é o grande tema de Malraux; nesse embate de idéias desconexas, está a riqueza do livro.
A inquietação de fundo talvez se entenda a partir da importância que escritores de vanguarda, como Max Jacob e André Gide, tiveram na formação pessoal de Malraux. Na juventude, foi fascinado pelo expressionismo. Quando viajou ao Camboja, em 23, rebelde e astucioso, chegou a ser acusado de desviar baixos-relevos "apsaras", detido e condenado a três anos de prisão, mas obteve sursis. Seu marxismo, além de fluido, parece intelectual demais - e a gravidade só lhe chegou, de fato, quando começou a escrever ficções. A literatura foi, apesar de todas as lutas que travou nos limites do real, seu grande destino. Seus livros, apesar do fundo histórico e contingente, refletem sempre sobre a condição humana e antecipam, de certa forma, as obras de Camus e de Sartre.
Falando a respeito da arte, um dia, ele disse: "A arte é um grande buraco no qual se mete qualquer coisa até deixar de haver buraco." Mas não qualquer coisa: para tapar a literatura com a realidade, é preciso ser um homem vigoroso e desassossegado, um eterno insatisfeito com as limitações humanas, um visionário como foi André Malraux.
Marcelo Jacques de Moraes
Jornal do Brasil, Idéias, de 9 de junho de 2001
Este ano celebra-se o centenário de nascimento de André Malraux.
O Ministério da Cultura e da Comunicação do Governo Francês
tem tratado o acontecimento como um dos mais importantes do ano. E as comemorações
não se restringem à França. De Boston a Tunes, de Barcelona
a Tóquio, de São Petersburgo a Porto Alegre, diversos eventos
estão sendo dedicados àquele que, além de romancista, cineasta
e ensaísta, foi ativista político internacional, comandante de
esquadrilha aérea na Guerra Civil Espanhola, herói da Resistência
francesa na 2ª Guerra Mundial e ministro de Estado. Colóquios de
especialistas, mostras de filmes e exposições de artes plásticas
são organizados na intenção não apenas de homenagear
o intelectual e homem público, mas também de repensar o sentido
e a atualidade de sua obra.
No Centro Cultural Banco do Brasil do Rio Janeiro, nesta semana, em evento organizado por Edson Rosa da Silva, professor de Literatura Francesa da UFRJ e especialista na obra de Malraux, foram abordados durante três dias vários aspectos de sua obra, com destaque para a discussão das relações entre os romances do escritor e seus ensaios sobre a arte.
Como bem se sabe, a vida e a obra de Malraux foram profundamente marcadas por seu interesse pela história. Além de ter militado ativamente, desde muito jovem, contra as diversas formas de fascismo tanto na Ásia quanto na Europa, e de ter participado ativamente da cena política francesa do pós-guerra até o final dos anos 1960, Malraux concebeu vários de seus romances a partir de acontecimentos que hoje se tornaram fatos históricos. Os exemplos são inúmeros: começam com Os conquistadores (1928), passam por A condição humana (1933), por O tempo do desprezo (1935) e por A esperança (1937), e chegam às suas Antimemórias (1967). A eloqüência do romancista e a importância política de seus temas fizeram com que crítica e público o reconhecessem de primeira hora.
Entretanto, certas tendências no panorama literário francês a partir dos anos 1950, como a busca de novas formas, o divórcio entre o estético e o político e o questionamento crescente de qualquer forma de ''profundidade'' no romance - aliados, naturalmente, à desastrosa trajetória política de De Gaulle, a quem o homem público Malraux permanecera ligado desde 1945 - levaram pouco a pouco a obra romanesca do escritor (ao contrário do que ocorreu com seus ensaios sobre a arte) a perder seu prestígio junto à intelectualidade francesa, ainda que continuasse a gozar de grande sucesso popular.
Nesses últimos anos, tais debates foram retomados e, com a distância, novos quadros sobre Malraux têm sido esboçados, acendendo, como não poderia deixar de ser, novas polêmicas. Nesse sentido, destacam-se tanto a enorme biografia de Olivier Todd, André Malraux: une vie, quanto a coletânea de testemunhos dedicados a Malraux organizada por Henri Godard, Lamitié André Malraux. Longe de constituir uma homenagem, o trabalho de Todd tem como objetivo mostrar como a imagem criada pelo ''ator extraordinário'' que foi Malraux sempre visou mais a ''bela página'' do que os fatos, e como o escritor que jamais deixou de ser um herói nos manuais escolares franceses não passava de um ''personagem de revista em quadrinhos''.
O biógrafo não hesita em pôr abaixo a ''vida reinventada'' de Malraux, desde os inverossímeis estudos de línguas orientais até a suspeita intimidade com Trotski, Mao ou Nehru. Em contrapartida, o trabalho de Godard, ao reunir textos sobre Malraux de nomes como Marcel Arland, Pascal Pia, Roman Gary, Raymond Aron e Paul Nothomb, entre outros grandes intelectuais franceses que lhe foram próximos, realça as virtudes do escritor na intimidade e na prática das relações humanas, tanto no âmbito do convívio afetivo quanto no da seriedade do debate de idéias e da reflexão conjunta.
Controvérsias à parte, parece-nos propício perguntar, no ano em que seu nome volta à cena com tanta força e que, entre nós, é lançada, em bem cuidada edição, nova tradução do romance A esperança (a primeira data de 1940): por que ler, ainda, Malraux? Em nossos dias e em relação à obra em questão, o problema poderia ser formulado nos seguintes termos: que interesse pode ainda despertar, em pleno século 21, em nossa era pretensamente pós-utópica e pós-ideológica, um romance de 1937 sobre a guerra de Espanha (confronto marcadamente ideologizado, como o foram todos no século 20), intitulado A esperança (palavra-chave do pensamento utópico)? Por que ler, em tempos em que a ação política e o gesto solidário são contidos e quase que exclusivamente regulados por fatores econômicos, um romance em que idéias como as de justiça, resistência, coletividade e fraternidade constituem valores incessantemente exaltados como os que deveriam nortear as escolhas humanas; um romance em que os homens, por intermédio do diálogo e da ação conjunta, abrem mão de suas diferenças em nome de uma crença partilhada (outro impensável de nossa contemporaneidade pós-ingênua)?
À época de seu aparecimento, o romance foi considerado como uma espécie de reportagem sobre a luta dos republicanos, os quais, em suas fileiras, incluíam intelectuais, camponeses e trabalhadores, anarquistas, comunistas e católicos, contra os nacionalistas comandados por Franco. Malraux, que participara do conflito em 1936, expõe de fato a realidade da guerra civil, oscilando, em sua narrativa, entre a grandeza lírica (''Daquela altura, (...) as lentas cortinas de fogo (...) subiam para o céu, onde nuvens informes avançavam lentamente; parecia que, ao olhar dos deuses, os homens eram apenas a matéria de incêndios.'') e a crueza realista (''Descarga. Dois tombam na fossa, um primeiro. Um dos organizadores da morte se aproxima. Será que vai ajeitar o corpo com o pé?'').
Entretanto, o que parece se sobrepor à descrição dos acontecimentos são os conflitos do homem posto diante de seus próprios limites - a guerra, a morte, ''aquilo que o esmaga'' - e o modo como, em tais circunstâncias, interroga seu destino e se relaciona com seus semelhantes. Assim, a narrativa é recoberta de inúmeros diálogos, às vezes demasiado solenes e, por isso mesmo, artificiais, mas sempre revestidos de grande intensidade dramática: ''O verdadeiro combate começa quando devemos lutar contra uma parte de nós mesmos... Até esse ponto, é muito fácil. Mas um homem só se torna homem através desses combates. É sempre preciso reencontrar o mundo em nós mesmos, queiramos ou não.''
Mas o elemento mais interessante a destacar talvez seja o modo como Malraux nos permite discutir as relações entre o indivíduo e a história. Para apresentar rapidamente a questão, parto de uma das mais evocadas frases do romance (e, provavelmente por um erro, suprimida em parte na tradução): ''A tragédia da morte está no fato de que ela transforma a vida em destino, de que a partir dela, nada mais pode ser compensado.'' Do ponto de vista do personagem, a frase parece implicar que, com a morte, as incertezas e contradições de uma existência se cristalizam, ao mesmo tempo em que seu caráter provisório e imprevisível se dissipa. Assim, a morte transformaria um processo enigmático e impenetrável, um combate infinito para aquele que o viveu, em configuração finita, estável, com contornos mais ou menos nítidos, passível de ser assimilada a uma densa rede de causalidades atraída para uma finalidade última: transformaria, em suma, a vida em destino. Se pensarmos em termos de uma sociedade, de um povo, tal perspectiva configura, evidentemente, uma visão fatalista da história: o futuro já estaria inscrito no presente, que caminharia inexoravelmente em determinada direção. Ora, esse não é o ponto de vista que prevalece na obra de Malraux.
A ambigüidade da formulação citada talvez nos permita entrever qual é seu ponto de vista. Afinal de contas, a frase vem também significar que, à exceção da morte, não há destino a priori para o homem e que, enquanto se está vivo, não se está condenado a coisa alguma, que sempre se pode lutar para mudar a própria vida, para transfigurar o ''destino imposto'' em ''destino dominado'', como o próprio autor definiu em Antimemórias. Sempre é possível traçar um rumo diferente daquele que, aparentemente, vinha se delineando para nós. Pois uma vez que a experiência concreta da morte, para cada um de nós, é sempre a experiência da morte do outro, é sempre a história do outro que se encontra encerrada. Nosso destino, de nós que estamos vivos, permanece eternamente em aberto. E é com essa abertura que se encerra o romance: ''Manuel [um simples militante comunista que no decorrer da narrativa se transforma no líder que leva o povo à vitória]ouvia pela primeira vez a voz daquilo que é mais grave que o sangue dos homens, mais inquietante que sua presença sobre a terra: - a possibilidade infinita de seu destino; e sentia aquela presença em si mesmo, misturada ao barulho dos riachos e ao passo dos prisioneiros, permanente e profunda como o batimento de seu coração.''
Se considerarmos as idéias de Malraux a respeito das relações entre a obra de arte e a história, presentes em seus ensaios sobre a arte e a literatura, veremos que elas vêm ratificar esse ponto de vista. Para ele, a arte é ''o lado vitorioso do único animal que sabe que vai morrer'', e a maneira de ler as obras do passado, a história da arte, não cessa de se transformar, de se metamorfosear ao longo do tempo. Porque, justamente, por meio da arte, a morte se torna ''metamorfose e não posteridade'', porque o ato da criação é aquele ''através do qual o homem arranca algo à morte'', ''transformando em consciência uma experiência'' (são as palavras com que o racional Garcia responde em A esperança à pergunta sobre o que um homem poderia fazer de melhor com sua vida) e dispondo-a, por meio de sua materialidade - livro, filme, quadro ou monumento - para outros. Assim, por exemplo, quando Malraux afirma, em Tête dobsidienne [Cabeça de obsidiana], livro de 1974, que reproduz diálogo de Malraux com Picasso, cuja tradução está sendo atualmente preparada, que a Guernica de Picasso exposta como obra de arte ''não [pertenceria]ao mesmo passado que a Guerra de Espanha'' porque ''a Guerra de Espanha foi, ao passo que o quadro é'', ou, em O homem precário e a literatura (ensaio publicado postumamente na França, em 1977, e ainda inédito no Brasil) que certamente haverá um ''elemento incognoscível para nós em razão do qual o próximo século admirará Baudelaire de uma outra maneira'', é no sentido de supor que uma obra de arte ou um texto literário continuam valendo como tais justamente em razão da possibilidade de prosseguirem significando alguma coisa para além do momento de sua produção e para outros expectadores/leitores que não aqueles a quem foram originalmente endereçados.
Parece-me que essa concepção da arte e da literatura como combate contra o destino, contra a morte, contra o tempo, contra tudo o que se afigura como inexorável, permite entender um pouco por que um romance que não previu, nem muito menos evitou, a derrocada republicana para os franquistas, que acabariam ganhando Madri em 1939, terá sobrevivido à decepção da esperança de que, naquele momento histórico específico, se pretendeu porta-voz. Se o destino do indivíduo é inevitavelmente a morte, a história dos homens é infinita. Por isso mesmo, a esperança de que fala Malraux não diz respeito tanto ao indivíduo quanto aos homens. São eles que fazem a história e é em nome deles que se deve lutar. E nesse sentido, para Malraux, a arte é um vetor fundamental. ''A arte é um anti-destino'', escreveria sinteticamente em As vozes do silêncio (ensaio de 1951 também inédito no Brasil). Talvez por isso possamos dizer que, de certa forma, o romance nunca deixou de ser para ele um laboratório de esperança. Sua visão sempre poderá ser questionada, é claro. Consciente disso, Malraux mantinha a firmeza: ''Pouco importa que aprovem minhas respostas, se não se pode ignorar minhas questões.''
Marcelo Jacques de Moraes é professor de Literatura Francesa na UFRJ,
pesquisador do CNPq, e participará, em novembro, de colóquio sobre
Malraux em Versalhes
Folha de São Paulo, Jornal de resenhas, de 9 de junho de 2001
Quando de sua publicação em 1937, no fervilhar da Guerra Civil
Espanhola, o romance "A Esperança", de André Malraux
(1901-1976), já era ansiosamente esperado, sobretudo no meio político
e literário, graças à aura de heroísmo do jovem
escritor engajado na guerra e a alguns trechos anteriormente publicados em periódicos
franceses. No clima político de então, o romance suscitava questões
ideológicas, éticas e até mesmo metafísicas. Não
sem reservas, a acolhida foi calorosa.
Com efeito, a atitude de Malraux, ao partir para a Espanha em 1936, despertou
a atenção dos franceses. Não aterrissou em solo espanhol,
porém, por acaso, na confusão dos primeiros momentos do conflito.
Aterrissou consciente do que então ali se passava. O sentido de sua visita
era claro em seus pronunciamentos: "O destino do artista arranca-lhe gritos,
seja de prazer ou de dor. Mas é o destino do mundo quem escolhe a linguagem
desses gritos".
Aproximava, assim, a função do artista de sua ação
no mundo. Engajava-se para lutar contra o fascismo, pois acreditava nos homens,
acreditava na coragem daqueles que defendiam a própria dignidade. Acreditava
na fraternidade. A ela queria aliar-se. Seu prestígio internacional era
um exemplo. Sem saber pilotar, assumiu o comando da esquadrilha "España"
e formou, com a colaboração de voluntários, uma verdadeira
aviação militar, a única capaz de se opor à aviação
fascista, sobretudo em Medellin e Teruel. São essas experiências
que "A Esperança" relata.
A primeira parte, "A Ilusão Lírica", descreve o clima
de euforia, de grande festa desorganizada, que foi o início da guerra.
Lirismo do primeiro entusiasmo, incapaz ainda de perceber o grau de ilusão
da festa. Defende-se aí a tese da necessidade da organização
revolucionária. Frente a uma guerra técnica, não é
possível deixar-se levar só pela emoção. É
preciso transformar o "Apocalipse da fraternidade", "sob pena
de morte". Vargas, um dos dirigentes do movimento, afirma: "Nossa
modesta função, senhor Magnin, é organizar o Apocalipse".
Malraux não critica esse clima lírico. Participando diretamente
dos acontecimentos, sabe que essa organização é difícil,
pois a revolução é a forma mais elevada de realizar, em
comunhão fraterna, os ideais frustrados dos combatentes. É uma
apaixonada resposta ao emocionado "No pasaran" de Dolores Ibarruri,
que os faz recusar o pragmatismo imediato, a ordem que os comunistas julgam
indispensável ao bom êxito do movimento. Por isso Malraux compreende
a importância do grito por tanto tempo contido e a esperança que
anima os combatentes -a tal ponto que dela faz o tema e o título do romance.
Para Manuel, um dos personagens principais, só havia "aquela noite
carregada de uma esperança confusa e sem limites, aquela noite em que
cada homem tinha alguma coisa a fazer sobre a terra".
A segunda parte trata da organização do combate e relata as vitórias
dos republicanos sobre os fascistas. Ao transpor para "A Esperança"
uma dificuldade efetiva da organização da guerra de 1936, Malraux
dá a seu romance um caráter que, apesar da invenção,
não perde a dimensão histórica.
Com efeito, são inúmeros os fatos tomados à história:
armados pelos sindicatos, os trabalhadores fazem malograr o levante de Barcelona,
Madri e Málaga; as milícias populares interceptam as tropas do
General Mola na Serra de Guadarrama; os republicanos cercam o coronel Moscardo,
entrincheirado com mulheres, crianças e reféns no Alcáçar
de Toledo; a esquadrilha internacional "España" bombardeia
400 mouros e legionários que avançam sobre Madri; os nacionalistas
bombardeiam Madri; o governo de Largo Caballero abandona Madri e se transfere
para Valência. E ainda: a conhecida ajuda dos países estrangeiros
à Espanha, a batalha de Madri, a batalha de Teruel, o ataque dos franquistas
a Málaga, entre outros. Além disso, a alusão a inúmeros
personagens reais, entre os quais o filósofo, poeta e dramaturgo Miguel
de Unamuno e a brava, a bravíssima Dolores Ibarruri, "la Pasionaria",
"viúva de todos os mortos das Astúrias".
Convivendo com a verdade histórica, os personagens de Malraux conduzem
a ação, discutem a legitimidade da guerra, defendem a justiça
e lutam pela dignidade do homem, como se não houvesse hiato entre a história
e a ficção, e como se só a arte fosse capaz de "dar
aos homens (muitas vezes esquecidos pela história oficial) consciência
da grandeza que ignoram em si mesmos" (conforme expressão de Malraux
em "O Tempo do Desprezo", romance de 1935).
Ancorada nos fatos históricos de 1936, "A Esperança"
assume também seu lugar ficcional: inventa personagens, reordena fatos,
seleciona, suprime, prioriza, fragmenta. É parcial: opta pela defesa
dos republicanos contra a força crescente do fascismo. Dá voz
aos camponeses que se revoltam e possibilita aos intelectuais como Garcia acalentarem
o sonho de mudar "as condições de vida dos camponeses espanhóis".
Por outro lado, como costuma acontecer no preexistencialista Malraux, deparamo-nos
aí com uma situação trágica do homem diante do seu
destino -talvez o tema mais recorrente de sua obra: os conflitos incontornáveis
da condição humana, título de seu romance mais conhecido,
prêmio Goncourt de 1933. Através dos combates do homem histórico,
Malraux encena a luta do homem universal contra a morte.
O romance não termina com a vitória fascista, mas sim com a vitória
republicana que reconquista Brihuega e faz recuarem italianos e franquistas.
Mentira? Ilusão? A dimensão da esperança, título
do livro e também da terceira parte, não permitia aceitar a derrota.
Esperança de ver a liberdade conquistada e a dignidade resgatada. Se,
durante 40 anos, "A Esperança" foi a história de um
sonho sempre adiado, a realidade acabou por dar razão à ficção:
sonho poético/ sonho profético que se realizou.
O romance o imaginou. Talvez o tenha influenciado.
Edson Rosa da Silva é professor de literatura francesa na Universidade
Federal do Rio de Janeiro e autor, entre outros livros, de "André
Malraux - Palavras no Brasil" (Funarte).